A RIQUEZA ALIMENTAR DAS PLANTAS ALIMENTÍCIAS NÃO CONVENCIONAIS
Apesar de ainda pouco conhecidas no Brasil, estas
plantas - chamadas de PANC -, possuem grande potencial nutricional e substituem
com sabor, hortaliças e frutos tradicionais
Quem anda pelas ruas de
Manaus e de outras cidades do Brasil pode se surpreender ao descobrir que
muitas plantas e flores que nascem espontaneamente em terrenos, jardins,
calçadas e espaços públicos podem ir para a mesa não como peças de decoração,
mas sim, como alimento.
Olhares mais atentos
aliados ao conhecimento descobrem como estas plantas podem marcar uma
verdadeira revolução alimentar e por que não, econômica, além de também
derrubar tabus em relação às chamadas plantas alimentícias não convencionais.
O professor doutor Valdely
Ferreira Kinupp é um estudioso apaixonado pelas chamadas PANC ( Plantas
Alimentícias Não Convencionais) e defensor ferrenho de um melhor aproveitamento
delas no nosso dia a dia. Confira aqui algumas espécies e forma de consumo e
uso.
Em sua tese de doutorado,
Kinupp nos leva a refletir sobre as influências que recebemos sobre nossos
hábitos alimentares e como um certo ‘conservadorismo’ acaba barrando a
oportunidade de experimentações gastronômicas.“Essas plantas geralmente são
chamadas de ‘daninhas’, ‘nocivas’ e vários outros nomes preconceituosos,
pejorativos e que refletem um ponto de vista.
Você come quase a mesma coisa o ano inteiro. Vai à feira, seja orgânica
ou convencional, mas não ousa experimentar uma coisa diferente”, exemplifica o
professor.
O desconhecimento destas
espécies ainda é grande não só no Amazonas, mas também em outras partes do
Brasil, porém, aos poucos, as pessoas começam a ter contato com estas plantas e
descobrem como elas podem representar alternativas para uma alimentação diferente,
saudável e rentável.
Hortaliças e frutos como
vitória-amazônica, caruru, orelha-de-macaco, também conhecida como espinafre
regional, cariru, ora-pro-nóbis , entre outras, podem trazer ousadia de sabores
à mesa.
Kinupp explica que no
Amazonas existem algumas poucas espécies tidas como hortaliças como o cubiu,
ária, feijão-de-asa e o quiabo-de-metro e também frutas como sorva, pajurá e
abricó, por exemplo. As frutas ainda são cultivadas em pequenos plantios ou em
áreas de manejo e geralmente de extrativismo.
Mas, a grande maioria das PANC ainda não é cultivada e é desconhecida da
população atual.
E esta riqueza alimentar ,
via de regra, não exige grandes adaptações ou técnicas para cultivo. As
espécies de PANC são de fácil plantio e propagação e são adaptadas às condições
de cada região. A maioria possui sementes, galhos, estacas que podem ser usados
na propagação sem que o agricultor tenha de comprar sementes comerciais. São
plantas que estão adaptadas às condições de solo e clima da região onde ocorrem
e podem ser cultivadas de forma agroecológica, ou seja, sem agrotóxicos e
adubação sintética.
O especialista cita alguns
experimentos que fez substituindo ingredientes tradicionais por hortaliças e
frutos como: vitória-amazônica, que utilizou fazendo pipoca, além das flores
que são comestíveis; o caruru, rico em ferro e vitamina A, que poderia ser
utilizado na pizza ou na fabricação de pão; e a orelha-de-macaco, conhecida
como espinafre regional, que pode enriquecer o arroz e o feijão.
Ele estima que existam no
Brasil, centenas ou milhares de espécies e exemplifica: “Em média de 10 a 20%
da diversidade de espécies vegetais têm potencial alimentício, isto é, se temos
40 mil espécies no país temos de 4 mil a 8 mil espécies de PANC, pois a maioria
não faz parte do nosso dia a dia. No Amazonas se estima (muito por baixo) em 8
mil espécies, daí teríamos de 800 a 1600 espécies potencialmente alimentícias.
Com tanta riqueza na
natureza ainda desconhecida, Kinupp convida as pessoas a refletirem sobre o que
sabem a respeito destas plantas. Quantas conhece, quantas já experimentou, se
elas são vistas nos cardápios de restaurantes ou nos programas de gastronomia.
“É uma reflexão que nós e poder público deveria fazer antes de tagarelar e
propalar a todos os cantos nossa megafitodiversidade. Comemos muito da
biodiversidade de outros países e continentes. Somos xenófilos à mesa!!!”,
declara.
Bem longe dos holofotes,
algumas destas plantas já tiveram seus momentos de fama em pratos de chefs
renomados, despertando não só a curiosidade mas também, admiração e surpresa:
como não experimentei isso antes? O assunto inclusive será tema de um encontro
no dia 26 de agosto, em São Paulo, dentro do projeto "Entre estantes e
panelas".
Em Manaus, algumas destas
PANC podem ser garimpadas em feiras, mas sempre é necessário que o consumidor
treine o olhar e cobre dos feirantes mais ofertas destas plantas. Kinupp cita a
feira do Coroado onde é possível encontrar ariá(batatinha da Amazônia),
feijão-de-asa, jilosão, espinafre-da-Amazônia, entre outras. Outros locais como
os feirões da Sepror e na Feira de Orgânicos no Ministério da Agricultura(MAPA)
também oferecem alguns tipos de PANC.
Descobrir estas plantas
diferentes e saborosas pode significar não só ousar na busca de sabores ainda
desconhecidos, mas aliar esta viagem gastronômica à saúde e à valorização dos
produtos regionais.
Fonte/Foto:
Cassandra Castro – A Critica/Valdely Kinupp


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