PRESTÍGIO E DINHEIRO ATRAEM ÍNDIOS PARA A CARREIRA MILITAR
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| Edgar
Alves Cardoso, 24, faz parte dos 70% dos indígenas que compõem o Exército
brasileiro que atua na fronteira com a Colômbia |
O
emprego do índio Edgar Alves Cardoso, de 24 anos, membro da etnia Pira-tapuya,
é defender o rio Içana, um afluente do alto rio Negro, no extremo da fronteira
de selva do Brasil com a Colômbia.
Ele
nasceu em Yauaretê, vila próxima a São Gabriel da Cachoeira, a principal cidade
do extremo norte do Estado do Amazonas, com 38 mil habitantes, e se alistou no
Exército como soldado em 1º de março de 2008.
Hoje
ele vive com a mulher, também indígena, da etnia Kuripaco, na aldeia da família
dela em São Joaquim, a 326 quilômetros ao norte de sua terra natal.
Cardoso
trabalha em uma base vizinha à aldeia, o Pelotão Especial de Fronteira de São
Joaquim - a unidade militar brasileira mais isolada da selva amazônica. A
pequena vila militar não tem telefone e fica a quatro dias de barco de São
Gabriel da Cachoeira.
Sua
história representa uma opção social bastante cobiçada por indígenas das 14
etnias que habitam a região do alto rio Negro, no Amazonas: entrar para o
Exército.
O
emprego militar não só é uma boa fonte de renda como dá um certo prestígio
social ao indígena em sua comunidade.
"É
muito comum ao indígena, ao final do tempo de serviço militar, retornar como
uma liderança natural em sua comunidade", disse o general Luiz Sérgio
Goulart Duarte (foto ao lado), comandante da 2ª Brigada de Infantaria de Selva.
Hoje,
dos cerca de 1.400 militares que defendem a fronteira do Brasil com a Colômbia
e a Venezuela, 70% são indígenas, segundo Duarte. Os maiores centros de
recrutamento são as cidades de São Gabriel da Cachoeira, Barcelos e Santa
Isabel do Rio Negro.
Técnicas indígenas
No
Pelotão Especial de Fronteira, a cultura e as habilidades de sobrevivência dos
povos nativos do alto Rio Negro são um diferencial entre os "militares
índios" e oficiais e praças nascidos em outras regiões do país.
Cardoso
costuma até dar "aulas particulares" para oficiais recém chegados à
região. O aluno mais recente foi um tenente interessado em aprender a nadar em
rios da Amazônia.
"Nadar
no rio é muito diferente de nadar em piscina. Ele nem sabia nadar, era igual a
uma pedra. Ele combinava uns horários comigo e a gente treinava as técnicas.
Natação, flutuação e nado submerso".
O
nado dos indígenas - parecido com o nado de peito, mas sem afundar a cabeça na
água - foi uma das técnicas incorporadas pelo Exército para operações de
combate na selva.
"O
tenente perguntou se podíamos treinar na chuva e a gente treinava na chuva.
Ensinei a ele que, quando o rio estava cheio, ele podia se segurar nos galhos das
árvores que estavam encostando na água", disse.
Cardoso
se diz orgulhoso do "aluno". Após uma temporada em São Joaquim, ele
conseguiu passar e se formar no curso do Centro de Instrução de Guerra na Selva
- um dos mais duros treinamentos para formar militares de elite no país e
também reconhecido internacionalmente.
Contudo,
segundo Cardoso, o conhecimento indígena não fica apenas na teoria.
Em
um episódio recente, ele participava como operador de rádio em uma patrulha de
reconhecimento de fronteira no rio Aiari. Seu grupo de militares não conseguiu
retornar no prazo de oito dias à base e ficou sem comida.
"O
suprimento (de alimentos) acabou e a gente teve que se virar. Veio à minha
mente que tinha frutas na mata. Eu e um sargento fomos procurar. Algumas frutas
não são comestíveis e eu ajudei o sargento a pegar as comestíveis",
afirmou.
Carreira
Contudo,
apesar da grande contribuição dos índios ao Exército, a maioria não consegue
chegar ao oficialato e permanece em patentes mais baixas.
Não
há, por exemplo, oficiais generais puramente indígenas - embora alguns
descendentes de índios tenham conseguido chegar a essa patente.
Segundo
Duarte, a dificuldade de ascensão do índio na hierarquia do Exército está
relacionada ao fato dos concursos públicos para oficiais e sargentos não
fazerem distinção entre índios e não índios. Como grande parte dos indígenas
ainda enfrenta deficiências na formação educacional tradicional, poucos têm
acesso às escolas de formação militar.
Fonte/Fotos: UOL./Exército Brasileiro



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