BELO MONTE: HISTÓRIAS QUE SUMIRÃO COM AS INUNDAÇÕES
Em fevereiro de 2010, Lucimar Barros da Silva mantinha viva a esperança de que iria manter intactos os 400 hectares de terra que possuía no Travessão do 27, em plena Transamazônica. No último sábado (17), sob uma temperatura de 34 graus, Lucimar pegou o microfone na manifestação contra Belo Monte em Altamira. O discurso, embora firme, já era de desencanto. “Eu vou ter que sair. Mas a indenização que vão me dar não quer dizer que eu sairei feliz”, diz ele.
Lucimar é filho de Abrão Fonseca da Silva, 71 anos, um maranhense que chegou a Altamira há 32 anos, depois de anos trabalhando como empregado em fazendas. Possui 300 hectares de terra, onde planta e cria gado. Resistiu o quanto pôde, mas também terá de sair da propriedade porque ela será alagada. Assim como a terra do filho Lucimar.
“É triste abandonar um lugar onde se derramou suor. Meu cacau já tá dando, consegui fazer uma casa como eu queria. Mas terei de largar isso”, diz Lucimar. “E o meu pai tem vez que chora, tem vez que acha que vai conseguir recuperar as coisas de novo”.
Em 2010, quando conversou com o DIÁRIO, Abrão dizia que não tinha mais idade para sair de onde vivia com a família, com o gado, os porcos, as galinhas, os carneiros, bodes, cachorros e o papagaio, para aventurar de novo. Abrão foi convidado para ir morar em Altamira em 1975, ainda sob a propaganda governamental, que prometia 100 hectares de terra para cada colono que se aventurasse no ‘desbravamento’ amazônico. Só cinco anos depois tomou coragem para vir. Criou família. Trabalhou de sol a sol. Fez a vida na Transamazônica.
É uma história semelhante ao de Amadeu Fiok, 74 anos, quarenta e um deles vivendo às margens da Transamazônica. Nascido no município de Castanhal, Fiok é uma das poucas vozes que se opõem à própria retirada do lugar em que mora, na Vila Santo Antonio. A comunidade, de pouco mais de 130 famílias, fica a 10 km de distância, se tanto, de um dos canteiros de obra de Belo Monte.
“Querem construir casas para os doutorezinhos”, diz Amadeu Fiok, sentado atrás do pequeno balcão da venda que montou depois que os braços não tiveram mais forças para trabalhar na roça. Fiok se refere a ideia de se construir casas para os engenheiros e outros graduados que irão trabalhar em Belo Monte.
A Vila Santo Antônio representa bem o impacto social que um empreendimento do porte da hidrelétrica causa. Qual o valor justo de uma indenização? Como calcular? “Me deram onze mil na minha casa”, diz Neca, uma mulher negra, de pouco mais de 30 anos. “Mas acho que faltou união da comunidade para brigar por mais direitos”.
“Perdemos a unidade de organização”, admite Edvan Gomes, 43 anos, que tenta, sem sucesso, unir a comunidade numa só voz. Só que a maioria aceitou o dinheiro disponibilizado pelo consórcio Norte Energia. “Sem voz igual, fica mais difícil resistir”, diz Gomes.
Amadeu Fiok resiste. Já recusou dinheiro alto pela venda do imóvel. “Eles dizem que não interessa o tempo que estou aqui, mas eu moro aqui há 41 anos. Quando cheguei a gente ia a pé para Altamira. Como é que isso não conta?”, reclama.
É o que pensa também Paulo Roberto de Souza, um paulista de 50 anos que trocou a boleia de caminhões para viver em Altamira. “Conheço o Brasil todo, mas é aqui o meu paraíso”, diz. O paraíso à qual ele se refere é o rio Xingu, que Souza pode alcançar em poucos passos a partir da casa onde mora. “Eu planto muruci aqui. Colho mais de 7 mil sacas por ano. Se eu tiver que sair, que me indenizem com um valor que realmente seja justo”, diz.
O local onde Paulo Roberto Souza mora é conhecido como Pedral. É uma área recheada de balneários, bastante procurada pelos moradores de Altamira. É onde o rio Xingu apresenta algumas partes menos profundas.
A Norte Energia disponibilizou três formas de compensação pelos imóveis. A indenização pela casa, a indenização pelo terreno e a recolocação da pessoa em um imóvel fornecido pela empresa.
Fonte/Foto: diário on line/rogério uchôa


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