A CULPA É DO POVO, QUE NÃO SE VENDE DIREITO

- por Leonardo Sakamoto

Uma discussão sobre o valor de uma consciência tranqüila me lembrou de cinco casos em que gente pobre foi tratada como commodity ou peça de reposição no Brasil. Olhando para eles, você pode se perguntar: por que a vida tem pouco valor por aqui? Simples: porque o povão não investe, como deveria, em marketing pessoal.
1) Moradores da periferia de Recife vendiam seus rins para transplantes na África do Sul. Ao todo, 38 pernambucanos fizeram “negócio” com a quadrilha até o esquema ser descoberto pela Polícia Federal. Os primeiros receberam R$ 8 mil por cada órgão. Mas a procura para ser “doador” cresceu tanto que os traficantes passaram a pagar só R$ 4 mil.
2) Uma mulher abandonou seu bebê de oito meses após não conseguir vendê-lo por R$ 100,00 para comprar crack. O Conselho Tutelar, em Maceió (AL), recebeu a criança e entrou em contato com a família, que também não quis mais a criança.
3) Em Eldorado dos Carajás (PA), um garimpeiro comentou que o bordel que frequentava só tinha “puta com idade de vaca velha”. Ou seja, de 12 anos. Para levar, de R$ 20,00 a R$ 40,00. Enquanto isso, em um posto de combustível, entre o Maranhão e o Tocantins, meninas franzinas usavam a voz de criança para oferecer programas. Por menos de R$ 30,00, deixavam a inocência de fora das boléias de caminhão. Entre os dentes, rangiam-se reclamações. Afinal, antes era mais barato.
4) Em uma fazenda no Sul do Pará, havia uma espécie de tabela para partes do corpo perdidas no serviço. Um dedo valia X, um braço Y, uma perna Z. Se a pessoa morria, contudo, o valor que a família receberia de indenização era menor que se as partes fossem perdidas uma por vez. Ou seja, o todo valia menos que as partes.
5) Antônio foi comprado por um fazendeiro para limpar pasto e ampliar fazenda, derrubando floresta amazônica. Preço: R$ 80,00. Quase um órfão do crack. Mais do que sexo oral com uma menina de 12 anos.

- Leonardo Sakamoto é jornalista e doutor em Ciência Política. Cobriu conflitos armados e o desrespeito aos direitos humanos em Timor Leste, Angola e no Paquistão. Professor de Jornalismo na PUC-SP e ex-professor na USP, trabalhou em diversos veículos de comunicação, cobrindo os problemas sociais brasileiros. É coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo.

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